XIII Congresso Ibérico de Entomologia

8 a 12 de Setembro de 2008

Flora

 

A serra da Estrela, pela sua posição latitudinal e distância em relação ao oceano Atlântico, está sujeita a influências climáticas mediterrânicas, atlânticas e continentais. Estes aspectos, em conjunto com a complexidade orográfica, geológica e a acção do Homem ao longo dos últimos séculos, determinam uma diversidade biológica elevada a nível da flora e vegetação.

 

A variação altitudinal considerável desta montanha tem como consequência uma zonação bem marcada da vegetação. Assim, é possível definir três andares de vegetação, que podem ser caracterizados pela sua vegetação actual, potencial e respectivas etapas de substituição.

Um andar basal, desde o sopé da montanha até aos 800-900 metros de altitude, que seria formado por extensos carvalhais perenes mediterrânicos de azinheira (Quercus rotundifolia) e sobreiro (Quercus suber), nas vertentes sudeste e sudoeste, e carvalhais caducifólios de carvalho-alvarinho (Quercus robur), a ocidente, norte e noroeste. Bosques de freixos (Fraxinus angustifolia) ocorreriam associados a solos húmidos e, nos vales ao longo das linhas de água, galerias rípicolas de amieiros (Alnus glutinosa), salgueiros (Salix sp.), ulmeiros (Ulmus minor) e azereiros (Prunus lusitanica). Na actualidade, a maioria destas formações desapareceram e foram substituídas por áreas de cultivo, prados e pastagens, lameiros, povoamentos florestais e matos em função das actividades humanas. Vestígios da primitiva cobertura vegetal deste andar podem ser encontrados ao longo de vales encaixados, dos quais é exemplo o bosque de azereiros de Casal do Rei.   

No andar intermédio, localizado entre os 800-900 metros e os 1600-1800 metros de altitude, nas vertentes sudeste e sudoeste, de características climáticas marcadamente mediterrânicas, a vegetação espontânea potencial seria formada por bosques de carvalho-negral (Quercus pyrenaica) e azinheira e nas vertentes ocidentais, com características mais atlânticas, por bosques de carvalho-negral. Sob condições edafo-climáticas mais húmidas desenvolviam-se bosques de bétulas (Betula pubescens) e teixos (Taxus baccata). Destas formações apenas subsistem pequenas manchas residuais, devido principalmente aos incêndios e às práticas agrícolas e silvo-pastoris. Os antigos bosques foram assim substituídos por etapas degradativas representadas por urzais (Erica sp. e Calluna vulgaris), giestais (Cytisus sp. e Genista sp.), ou caldoneirais (Echinospartum ibericum) e por prados pioneiros em locais onde a degradação se fez sentir com maior intensidade.

O andar superior, localizado acima dos 1600-1800 metros de altitude é o menos desenvolvido não só devido à altitude, como também pela sua pequena superfície, sendo, em simultâneo, aquele em que a acção do Homem menos se fez sentir. No passado, aquando do recuo dos glaciares, a bétula, o carvalho-negral, o pinheiro-silvestre (Pinus sylvestris) e o teixo marcavam presença neste andar em conjunto com o zimbro (Juniperus communis), o piorno (Cytisus oromediterraneus) e a caldoneira. No presente, a vegetação predominante é constituída por um mosaico de formações arbustivas (piornais, caldoneirais, urzais e giestais), marcado pelo claro domínio do zimbro, entrecortados por prados de montanha, comunidades rupícolas e lacustres. Neste andar encontram-se alguns dos principais biótopos e espécies de flora cujo estatuto de conservação é prioritário, dos quais são exemplo: os cervunais (prados de altitude), as charnecas e matos de altitude, as cascalheiras e outros ambientes rochosos, as turfeiras e a vegetação marginal e flutuante associada aos habitats lacustres e aos cursos de água. Este conjunto de comunidades, algumas das quais apenas representadas em Portugal nesta zona, revestem-se de elevado interesse científico e ecológico.

Da flora da serra da Estrela fazem parte mais de 900 taxa de plantas vasculares, que representam cerca de um terço da fitodiversidade nacional, alguns deles endémicos tais como: Festuca henriquesii, Silene foetida foetida e outros de ocorrência restrita em Portugal à serra da Estrela, correspondentes a elementos florísticos mediterrânicos, atlânticos, continentais, alpinos e boreais. No Parque Natural da Serra da Estrela existem 32 habitats incluídos na Directiva “Habitats” e cerca de 25% das espécies de plantas descritas nesta área fazem parte da lista preliminar para o Livro Vermelho das plantas vasculares de Portugal.

Vale de Loriga

Carvalhal em Manteigas

Esporas-bravas (Linaria triornithophora)

Azereiro

Teixo

Narciso-trombeta (Narcisus pseudonarcisus)

Mato de Caldoneira

Gramínea, Festuca henriquesii

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